14.
Eu o mesmo
                       o tempo
                                      que passa
E
                       Não espera               por mim...
Arrogante     prepotente
Desprezo
Ser o mesmo.


-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Amadeu de Souza-Cardoso)

13.
Dentro de ti
Fundo
Em mim
Submissamente
As nuvens passam
Passos que param
Persigo o esquecimento

Chove ao vento                                                      ao                                             sol que se esvai.


-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Monet)

12.
Choras
alma
sofres
padeces
estado
de dor
acordada
respirada
sofregamente

um fim
sempre presente.

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Henri Rousseau) 

11.
Solto o meu andar pelas margens do rio,
Enfio pela estrada, vou dar à ponte
O Sol por detrás queima-me as costas...

As nuvens que carregadas passam...
São minhas, as figuras...

A minha silhueta no rio
Perde-se na sombra escura...

Nada perdura tudo se finda...

Venço a morte... ou... talvez não...
Pelo menos por agora que a nuvem
Passa e tapa o sol...

Aquela luz que me ilumina
Forte, dolorosamente frívola...


-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Monet)


10.
Olhar-te assim como um pôr-do-sol...
Mergulhado em teu aroma... – estou a sorrir...
Navego nos teus lábios, procuro um porto
Onde descansar... azul o céu a olhar...

Murmúrio delicado de água a namorar...
Sinto a espuma salgada de pedras e areia
Num oceano imenso de amor...

Beijos, loucas carícias... olhares perdidos...
Pachorrento, pesado movimento parado
Sonho azul... bebo o meu pensamento...
Sonho com portos... navego ao sabor dos teus lábios...

Deslizo em mim, no teu corpo molhado
O céu fecha-se, o todo submerge-nos,
Sinto pressão... além bate uma porta...
O mundo todo em torno de nós...

Sufoco... deixo-me cair na areia
Olho... tudo igual e indiferente... a porta
Está aberta e os ventos percorrem o espaço...
... deitado na areia, só...

Ah!... triste engano, névoa escura e densa...


-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Chagall)

9.
Na rua molhada                                 observo atento, curioso, o povo...

Fecho os olhos em ferida                                    sinto o sangue junto com a
bebida                    ... o cansaço terno do Inverno...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Pablo Picasso) 


8.
... e tu olhas-me assim distraidamente                 como quem olha
somente                      que nem pensas na infelicidade           de eu estar
descontente                de teimar ciumento                               que nem
pensas em mim.

-Poesia de 1982/1991-
(Quadro de Courbet)