III – VERSOS DE PAIXÃO (1982-1991)
"A tua linda voz de água corrente
Ensinou-me a cantar... e essa canção
Foi ritmo nos meus versos de paixão, Foi graça no meu peito de descrente."
Florbela Espanca
31.
A água
cai em
cascata
Fresca ligeira muito liquida
Há orvalho na manhã fria
A água
Liberta vapor
O nevoeiro engole as árvores
O sol
Que espreita
Aves que planam no céu
Mal se distinguem...
pequenas silhuetas
Oiço
Com nitidez
O bater de asas e sinto-me feliz
por estar nesta paisagem
E não estar ao
mesmo tempo sinto um gozo enorme
De me sonhar noutros lugares
Que não este...
-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Henri Rousseau)
27.
As sombras nuas espreitam-me com os olhos esbugalhados
Silenciosamente, docemente... a luz artificial no teto...
Em baixo, por cima da cama dois corpos entrelaçados
Nas margens as roupas em desarrumo especial...
Em baixo, quase ao meio, o regaço húmido e quente
As pernas abertas, carícias suaves
Em baixo, os lençóis molhados de suor e de cheiros
O calor das extremidades, gotas de orvalho... nasce o Sol...
Em baixo, os gritos de uma mulher e de um filho
O homem acaba de chegar, de voz rouca, quase inocente...
As sombras salientes como manchas nas paredes...
-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Gustave Courbet)
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