23.
O meu pensar é o fugir
É julgar que se sorri e se chora
É fechar e não mais querer abrir
É o meu refugio, o me canto, o meu teto
E nunca se saber ao certo onde se mora
É o manto que me protege da chuva
E do frio da noite feita lá fora...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de René Magritte)

22.
Lembras-te de mim
Ó imagem, miragem
Minha distante?
Recordas-te de mim?
Ó eu que me invoco
Responde ao meu chamar!...

Quando em mim cruzares
Ao atravessarmos os dois o mesmo lugar
E se seguirmos rumos diferentes,
Fala-me, diz-me algo...
Mesmo que nada seja...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Mark Rothko)

21.
Serão loucos os loucos
Ou serão os outros
Que não sendo loucos
O são?...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Mark Rothko) 

20.
Durmo acordado sem ter sono de viver
Dói-me a alma de te não ter
Choro em mim e não sei porquê...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Willem de Kooning)


19.
A luz da vela decai agora frouxa e mole
Nas rudes paredes do coberto
Uma leve dor transpira das paredes

A gota de luz cai, espalha-se
Em cada letra escrita
No livro, naquela página...

...Mas nada contém...
...Vazio e palavras...

O livro aberto, aberto pelo vento
Que vem da porta fechada...
E que inunda o espaço...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Jackson Pollock)

18.
Queria ser quem nada pretende querer
Queria ser não sendo, sendo só viver

...Ah, tão longe da minha ideia o meu destino dista...

Queria ser o teu destino, o teu desfalecer
Queria ser o querer-te sem receio de morrer

Queria ser o ar que respiras sem perceber
Queria... talvez, só entender!...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Degas)

17.
Respiro comigo mesmo o ar
Da solidão escura que existe em mim
Todos os céus num só
Na minha mão que são muitas
O meu ensejo é esquecer o azul
Os meus dedos que sobram
E se completam sem eu entender...

Bafos de lua cheia
Marés distantes, noite
Que nunca acaba por eu gostar dela...

Amor que se apaga sem ter acendido...

Desilusão fugaz e eterna
Que brota das entranhas
Profundas de um oceano chamado eu...
Morra-me a vontade
Que seja eu quem devia ter sido.

Deixo-me falecer nos teus braços
Que são os meus
E durmo o sono efémero ouvindo
A voz do meu sonho...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Courbet)