20.
Durmo acordado sem ter sono de viver
Dói-me a alma de te não ter
Choro em mim e não sei porquê...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Willem de Kooning)


19.
A luz da vela decai agora frouxa e mole
Nas rudes paredes do coberto
Uma leve dor transpira das paredes

A gota de luz cai, espalha-se
Em cada letra escrita
No livro, naquela página...

...Mas nada contém...
...Vazio e palavras...

O livro aberto, aberto pelo vento
Que vem da porta fechada...
E que inunda o espaço...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Jackson Pollock)

18.
Queria ser quem nada pretende querer
Queria ser não sendo, sendo só viver

...Ah, tão longe da minha ideia o meu destino dista...

Queria ser o teu destino, o teu desfalecer
Queria ser o querer-te sem receio de morrer

Queria ser o ar que respiras sem perceber
Queria... talvez, só entender!...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Degas)

17.
Respiro comigo mesmo o ar
Da solidão escura que existe em mim
Todos os céus num só
Na minha mão que são muitas
O meu ensejo é esquecer o azul
Os meus dedos que sobram
E se completam sem eu entender...

Bafos de lua cheia
Marés distantes, noite
Que nunca acaba por eu gostar dela...

Amor que se apaga sem ter acendido...

Desilusão fugaz e eterna
Que brota das entranhas
Profundas de um oceano chamado eu...
Morra-me a vontade
Que seja eu quem devia ter sido.

Deixo-me falecer nos teus braços
Que são os meus
E durmo o sono efémero ouvindo
A voz do meu sonho...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Courbet)


16.
Brinco com os teus dedos
Entre os meus, penso em nós
E o futuro é um horizonte vasto
Feito de céus e de nuvens
E de rios pequenos e grandes
E oceanos e tempestades
E tardes calmas de Verão
E o mar chão a dar-me
Pelos joelhos nus... marés vivas
E planícies verdejantes
Prados brilhantes
E desertos e oásis
E no fim, bem lá no fundo
Bem ao centro
O astro amarelo e vermelho
De uma tonalidade impar
Majestosamente, eleva-se
E este é o princípio mágico
Que ainda não entendi
Que nos une na eternidade
Para todo o sempre...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Courbet)

15.
A cidade mergulha no cinzento claro
Do aveludado, acetinado, lençol céu...

Não é de chuva nem de vento
Nem de frio o dia.

As casas amontoam-se na encosta
Telhados cor de tijolo, algumas vestidas
Outras ainda nuas olham o futuro
Distante, longe, são os vizinhos de outras terras

Ruas que descem, tascas, vinho
Que aquece a alma, respira pelas frinchas
De cada porta, deixa um aroma
Fresco de vida na calçada húmida, ainda é manhã...

À hora do almoço, um ar a comida
Flutua, erra nostalgicamente pelas ruas

Nunca ninguém pintou nada
Desta paz silenciosa, deste sentimento
Intenso que assalta as narinas
De quem distraído passa.

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Cezanne)

14.
Parecem esquecer-se em mim as memórias
... Daquele átrio...
Onde a minha saudade se esconde
Onde a minha alma se perde
... Em cada pétala...
... Em cada manhã...
Os campos todos de branco
O Sol fugidio...

Muros altos
Paredes sujas
Redes fugas
Paixões rebentos
Intentos queridos

Eu sou aquele solitário
Ali sentado, encostado,
Demorado no olhar
Triste no ser...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Renoir)