15.
A cidade mergulha no cinzento claro
Do aveludado, acetinado, lençol céu...

Não é de chuva nem de vento
Nem de frio o dia.

As casas amontoam-se na encosta
Telhados cor de tijolo, algumas vestidas
Outras ainda nuas olham o futuro
Distante, longe, são os vizinhos de outras terras

Ruas que descem, tascas, vinho
Que aquece a alma, respira pelas frinchas
De cada porta, deixa um aroma
Fresco de vida na calçada húmida, ainda é manhã...

À hora do almoço, um ar a comida
Flutua, erra nostalgicamente pelas ruas

Nunca ninguém pintou nada
Desta paz silenciosa, deste sentimento
Intenso que assalta as narinas
De quem distraído passa.

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Cezanne)

14.
Parecem esquecer-se em mim as memórias
... Daquele átrio...
Onde a minha saudade se esconde
Onde a minha alma se perde
... Em cada pétala...
... Em cada manhã...
Os campos todos de branco
O Sol fugidio...

Muros altos
Paredes sujas
Redes fugas
Paixões rebentos
Intentos queridos

Eu sou aquele solitário
Ali sentado, encostado,
Demorado no olhar
Triste no ser...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Renoir)

13.
Quem é aquele rapazito?
Que ali sentado parece
Aquele velho viciado
No tabaco e na bebida
E que faz versos para enganar
Os tempos e os ventos
E os lamentos que ainda o esperam...
Quem é aquele garoto?!
Que sabe ele da vida?!
Terá rugas algum dia
Quem na aparência
Já as tem?!
Quem és tu?
Que de nariz aquilino
E semblante escuro
Parece tecer o passado no futuro...
Quem és?
Que fazes tu aqui sozinho
Pálido, magro, inerte, pensativo...
Em que pensas tu?
A chuva cai
Escorre-te pelo rosto
Silencioso, quieto...
Não tens frio?!
Não tens sono?!
Estou a vê-lo
Nítida a imagem
Movimento estável
Doloroso medo...
Quem és?
Serei eu
Que não sendo menino
Velho não sou?!
Sou eu...
Aquilo que sempre fui...
Até à eternidade...
Eu sou ele
Na lembrança
Nesse resto de mim...
Não tenho frio nem sono,
Apenas tenho saudade dos outros,
Daqueles que nunca fui...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Salvador Dalí)


12.
Ergue-se o fumo por entre os meus dedos
Semierguidos em jeito encostado de contemplação
O vazio do lá fora escuro enche-me o coração
Meus lábios, olhos, demorado sorrir, estão quedos
Quebrados na monotonia nostálgica de um fumo
Que se ergue por entre os meus dedos
Mais alto que nada
Mais baixo que tudo.
Esta é a essência, a substância
Feita de infância de passados de nada
A não ser de fumo, daquele cinzento
De cinza lançado ao ar...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Wassily Kandinsky)

11.
A tinta imprimida no papel curva-se
Ao sabor da minha mão, dos dedos
Que correm saltitando de palavra em palavra
Sorriem ao vento imaginário e louco do meu pensar...

Escrevo pelo simples facto de não saber quem sou...
E porque tudo é tinta, letras, palavras escritas
Qualquer coisa, sem nexo nenhum.

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Wassily Kandinsky)

10.
A luta é constante
Nula e psicológica
Tudo é stress
E a vida lógica.

Tudo é tempo, ponteiros,
Contado e preenchido
E a morte é nada.

Tudo é estéril e igual
O dormir é finito
Cansativo e irreal...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Salvador Dalí)

9.
Tudo é falso
Nada é falso
Somente sei nada...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Mikhail Larionov)