8.
Gaivotas sobre o mar
                                       Numa noite quente de luar

Erguem-se a voar
               Entre gemidos frios
Espaços esguios

                                       No céu nulo...


-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Vincent Van Gogh)

7.
Oh, tormentos crepusculares
Cinzentos de sensibilidade
Padeço o mal do desejo
Da imaginação sem forma...


-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Ernst Ludwig Kirchner)









6.
Eu sou matéria
                                             Inerte e imóvel

Eu sou um pensamento
                                             Fútil e inconstante

Eu sou as cinzas e o pó
                                             Um sorrir que não é meu.


-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Ernst Ludwig Kirchner)

5.
Oh, saudade triste saudade
Oh, lembrança audaz e persistente
Que me queimas o interior cruelmente
Vai-te, deixa-me só nas sombras da vontade...

Oh, saudade, triste saudade
De ser feliz somente
Quero por instantes breves sentir que é verdade
A mentira que dentro de mim mente

E ter vontade de nunca mais ter vontade
De lembranças e ledas saudades.

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Matisse)

4.
Já nada sei
Tudo o que escrevo: letras, frases
Nexo não têm.

"Livre é a minha arte" – digo.
Mas o que é ser livre?!...
Ah!... Sentimentos soltos...
Necessidades totais de nada dizer
Somente escrever, até ao fim...
Mas o que é o fim?...

Isto é tudo um erro
Um erguer de uma voz...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Pablo Picasso)  

3.
Tudo é um não saber constante...
Tudo não passa de um equivoco natural e inconsciente...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Pollock)










2.
Tudo o que sou
Já nem sei quem é
Todo o eu é plural...
Sombra... sombras...
E eu vivo contente,
Feliz... só e sempre dois...

O plural e eu sós
Fitando a sombra de nós...

Uma só é a minha voz
Eu sou um só,

Mas... uma parte de mim sou eu
A outra não sei.

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Piet Mondrian)

1.
Respiro o ar que pisas e se perde na penumbra
Escura e fria... os teus passos no meu peito como um pêndulo...
O tempo tomba no espaço íntimo da minha existência...

Despidos os corpos de vaidade... doce o azul dos teus olhos mar...
Faleço em querer-te... ofuscado na tua imagem, o meu ser... sonho...
Espelhos quebrados... luar que inunda o quarto... pela janela a escura solidão.

Bailam no escuro cabelos ao vento celestes...
Um resto de ser paira em mim... vejo a sombra...
À noite, no estar só, a sombra funde-se em mim...

A pena escreve indiferente e nula... o pensamento vão...
Chegam-me aos ouvidos ruídos estranhos... a noite a acordar em mim...
Uma voz uma guitarra um só eco um só tempo um só espaço...
momento...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Pierre-Auguste Renoir)
II - TODOS OS SONHOS DO MUNDO (1982-1991)



"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

Álvaro de Campos
"O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Sim
a ratos"

Alexandre O’Neill


31.
Vozes, fome, cartazes, massa bruta e disforme
Gritam gritos de revolta

Sonham mudar o mundo

Idealismos... novas religiões
Fazem vibrar, doentias multidões.

Julgando que julgam profundo
Enterram milhões em covas bem no fundo...

Mentes pérfidas, espíritos perdidos
Sonhos manipulados, sofridos...

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Salvador Dalí)

30.
No Jardim do Éden,
Lugar de luxos e delicias
Onde a alma dos justos descansa
Não há frio nem calor,

Apenas há amor
Que brota das pedras
E se faz água que corre...

Um fresco aroma a flores
Percorre a latitude e a longitude.
Nos olhos sem dores

O vagar dos tempos
Namora os ventos
Que trazem as cores
Que fazem da noite o dia...

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Charles Joseph Natoire)


29.
O sonho é o mundo
É a lança de Quixote
É Camões delirante
É bardos Homéricos cantando Ulisses

O sonho é Shakespeare
É Júlio Verne e o capitão Nemo
São as aventuras de Tom Sawyer

Os sonhos são livros
E o mundo apenas letras
E cada letra uma aventura sagrada
E Deus cabe numa ideia

O sonho é a matéria
A Ode à Alegria de Ludwig
É a paixão e o drama
Essências primeiras...

...E no princípio havia o sonho...
...E do sonho nasce o verbo...
...E do sonho nasce a vida...

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Charles Joseph Natoire)

28.
Sentado nos degraus
Observo um final de tarde amarelado e feliz


Enrolado o mar deita-se nas rochas
Na linha do horizonte a silhueta de um navio...

Nas minhas costas o trânsito fozeiro
Olha o relógio inquisidor e distante

Deitado na areia indiferente
Os filhos do mar sorriem a vida

As esplanadas de pernas traçadas
Sorvem o Sol às bicadas

Levanto-me e subo socalco a socalco
O espaço que me separa da vida...

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Monet)


27.
A verdade e a mentira:

os suspensórios do Larry King
As mãos gretadas pela geada dos Invernos

segundos dentro de uma caixa...

A cultura coca-cola,
os heróis do Oeste
O plástico
O céu-da-boca no efémero...

búfalos
Índios
Gordos
que praticam zapping

e nas células cerebrais

a verdade e a mentira.

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Andy Warhol)


26.
E com o dedo estendido, esticado mas não muito
Quase que sonho tocar no mais misterioso dos mistérios...

O espaço o tempo a matéria e a energia...
Crianças correm brincando na inocência de um sorriso

E o som é o silêncio do mundo e do universo
Que é inocente e que brinca e sorri...

E com o dedo estendido, esticado mas não muito
Olho-me de frente... para o nada…

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Miguel Angelo)

25.
Os gestos escorregam pelo espaço inundado de ar
São frases soltas de cheiros estranhos e cores bizarras
No meio do silêncio ensurdecedor, a ambiguidade
Duvidosa inteligência do ser que corre contra o vento.



Naquela tarde tardia e subconsciente o lógico
É um velho que se sente feliz por estar vivo
Apesar de estar ligado a uma máquina que o deixa vegetal
Ilógico é estar triste por ter alguém simplesmente morrido.


No sol doentio os gestos, as frases no silêncio
O patético torna-se trágico e as flores no jardim
Brotam articuladas com a magia eterna da criação
Os mais belos rebentos...
no fundo da rua que não existe


Os homens na tardia tarde discutem a metafísica
E a física quântica... e a caneta sem querer não pára e o movimento é físico e metafísico e quântico
Acabam de desligar a máquina e o estertor da morte
Nem um ai arranca do silêncio pesado do Sol e dos gestos.


-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Hieronymus Bosch)


24.
Olhos moucos, ouvidos cegos
O desespero dos desesperados
Um quadro feito ideias
As letras pintadas a preto e branco
A solidão ao fundo semi vestida
Entre as sombras, a luz forte do norte
E o frio no capote do velho
De unhas enormes e cabelos enormes
Num sorriso largo e triste
Daquele que já fora
O homem mais rico do mundo.

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Hieronymus Bosch)

23.
Rabisco coisas no guardanapo do bolso
Os dedos do cigarro saltam histéricos
Como virgens papoilas de adolescentes sorrisos
Os óculos na ponta do nariz sonhador
Fazem prever danças da chuva lá para o Verão
Correm os putos ao ar que não é
Torcem os pés as cachopas
E a luz branca, suja de tão escura do dia que é noite
Percorre o meu peito e abraça-me como quem se despede
Ao longe correm as tartarugas desenfreadamente
Paradas no trânsito selvático que molha os pés no suor
Quente de mais um dia de Inverno normal
A chama apaga-se e é o costume
É um aroma a merda que se cola ao cu
E à saliva do mar revolto nas rochas
Circo dos circos homens elefantes de razões distantes
Confiantes no dinheiro das algibeiras
Que matam à fome e à sede os outros
Aqueles... somos nós que fodemos tudo
Nós aqueles, aqueles como nós
A dor a cada brisa que desliza e pisa
As consciências de quem dorme descansado
E eu atormentado escrevo desalentado
Frutos secos na Primavera...

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Clifford Still)

22.
Meu olhar absorve tudo
Com a sede de um bêbado
Olho-te na transcendência que és
Faço-me o ar que te entra nos pulmões
Envergonhado desvio as palavras
E caio no silêncio triste dos olhos
O real é o espaço entre o aqui e o nada
E é na solidão do meu quarto
Que repouso descansado cansado de ser.

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Vincent Van Gogh)