27.
A verdade e a mentira:

os suspensórios do Larry King
As mãos gretadas pela geada dos Invernos

segundos dentro de uma caixa...

A cultura coca-cola,
os heróis do Oeste
O plástico
O céu-da-boca no efémero...

búfalos
Índios
Gordos
que praticam zapping

e nas células cerebrais

a verdade e a mentira.

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Andy Warhol)


26.
E com o dedo estendido, esticado mas não muito
Quase que sonho tocar no mais misterioso dos mistérios...

O espaço o tempo a matéria e a energia...
Crianças correm brincando na inocência de um sorriso

E o som é o silêncio do mundo e do universo
Que é inocente e que brinca e sorri...

E com o dedo estendido, esticado mas não muito
Olho-me de frente... para o nada…

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Miguel Angelo)

25.
Os gestos escorregam pelo espaço inundado de ar
São frases soltas de cheiros estranhos e cores bizarras
No meio do silêncio ensurdecedor, a ambiguidade
Duvidosa inteligência do ser que corre contra o vento.



Naquela tarde tardia e subconsciente o lógico
É um velho que se sente feliz por estar vivo
Apesar de estar ligado a uma máquina que o deixa vegetal
Ilógico é estar triste por ter alguém simplesmente morrido.


No sol doentio os gestos, as frases no silêncio
O patético torna-se trágico e as flores no jardim
Brotam articuladas com a magia eterna da criação
Os mais belos rebentos...
no fundo da rua que não existe


Os homens na tardia tarde discutem a metafísica
E a física quântica... e a caneta sem querer não pára e o movimento é físico e metafísico e quântico
Acabam de desligar a máquina e o estertor da morte
Nem um ai arranca do silêncio pesado do Sol e dos gestos.


-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Hieronymus Bosch)


24.
Olhos moucos, ouvidos cegos
O desespero dos desesperados
Um quadro feito ideias
As letras pintadas a preto e branco
A solidão ao fundo semi vestida
Entre as sombras, a luz forte do norte
E o frio no capote do velho
De unhas enormes e cabelos enormes
Num sorriso largo e triste
Daquele que já fora
O homem mais rico do mundo.

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Hieronymus Bosch)

23.
Rabisco coisas no guardanapo do bolso
Os dedos do cigarro saltam histéricos
Como virgens papoilas de adolescentes sorrisos
Os óculos na ponta do nariz sonhador
Fazem prever danças da chuva lá para o Verão
Correm os putos ao ar que não é
Torcem os pés as cachopas
E a luz branca, suja de tão escura do dia que é noite
Percorre o meu peito e abraça-me como quem se despede
Ao longe correm as tartarugas desenfreadamente
Paradas no trânsito selvático que molha os pés no suor
Quente de mais um dia de Inverno normal
A chama apaga-se e é o costume
É um aroma a merda que se cola ao cu
E à saliva do mar revolto nas rochas
Circo dos circos homens elefantes de razões distantes
Confiantes no dinheiro das algibeiras
Que matam à fome e à sede os outros
Aqueles... somos nós que fodemos tudo
Nós aqueles, aqueles como nós
A dor a cada brisa que desliza e pisa
As consciências de quem dorme descansado
E eu atormentado escrevo desalentado
Frutos secos na Primavera...

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Clifford Still)

22.
Meu olhar absorve tudo
Com a sede de um bêbado
Olho-te na transcendência que és
Faço-me o ar que te entra nos pulmões
Envergonhado desvio as palavras
E caio no silêncio triste dos olhos
O real é o espaço entre o aqui e o nada
E é na solidão do meu quarto
Que repouso descansado cansado de ser.

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Vincent Van Gogh)


21.
A solidão das nuvens
A toda a volta
Meus olhos inseguros
Sorriem gritos de revolta

Escavo túneis
Planeio fugas
Mas os dedos inúteis
Só me trazem lamentos, dúvidas...

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Toulouse-Lautrec)