21.
A solidão das nuvens
A toda a volta
Meus olhos inseguros
Sorriem gritos de revolta

Escavo túneis
Planeio fugas
Mas os dedos inúteis
Só me trazem lamentos, dúvidas...

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Toulouse-Lautrec)


20.
O ser é a transcendência total
Nele está encerrado todo o espírito
Tal como a sombra é a arvore
A verdade das coisas está na sua não existência...
Quanto mais perto da incerteza do infinito
Mais longe da incerteza do infinito
O paradoxo é a eterna sabedoria da ignorância...

-Poemas de 1998/2000-
(René Magritte)















19.
Janelas para a rua,                            sem carros,
Silêncios, suaves,                                             sonhos breves
             A noite, a cidade, corpos deitados
                                      Os sons, no escuro, seios doces
Excitamentos, tremores, seres noctívagos
Sorrisos abafados, na tosse arrastada, chuvas
            Ventos esvoaçando pelas frinchas
Pelas fofas almofadas deitadas junto ao sexo
Nu da noite prostituta que se vende ao dia
                                      Sem pecados nem dores originais.

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Toulouse-Lautrec)


18.
As palavras são apenas letras
No intervalo vazio e nulo e sombrio
Do éter
Pedaços de mundos sombras
Correntes frias de pensamentos
Viagens sem princípio nem fim
Como escrava até remir a sua dívida
De letras são feitas as palavras
De sonhos em noites de Verão
Sentimentos invernais
Solidões pálidas
Conhecimentos vagos
Incertezas
Medos.

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Joan Miró)

17.
Um grito, sangue
o eco no espaço à velocidade da luz até à infinidade das trevas e do
silêncio


Corredores de corpos, despedaçados
cheiros nauseabundos infestam o ar e as flores e o azul negro do céu
desaba

A morte sorri

nos rostos dos carrascos, desprezo

Ao longe, ao fundo dos tempos, uma brisa de sol deixa ver na
escuridão cinzenta um pouco de luz... um pouco de esperança...

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Hieronymus Bosch)


16.
Megálito
Em alinhamento preciso
Enormes as pedras
Círculos eternos
Rituais estranhos
Símbolos gigantes
Passos místicos
Ventos espíritos
Luas lamentos
Invernos frios
A morte que espreita
A cada dia que passa
Corpos sofridos
De sortes e enganos
Dos céus...
O ocaso...
Sabedoria milenar
A natureza viva
Faz do homem o que ele é
A força dos elementos
Contra pequenos átomos cheios de vida...

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Joan Miró)













15.
O zero absoluto                             princípio                                      fim
Aquele tempo sem espaço          Aquele espaço sem tempo        o

não ser absoluto
Antes de ser                          o nada de qualquer coisa                  os

restos do inexistente
O eterno retorno                  o principio no fim        o fim no principio
A unidade unitária do nada             o nascer da morte

a morte renascida
O absurdo                    uma ideia                 uma ideia absurda
O infinito                      um primeiro passo              o seu eco
Big bang                        singularidade          big crunch
O nada            quark                 a alma
Ser ou não ser              protões e neutrões                  tudo junto
0                      o,oooo... 1                     o


-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Barnett Newman)


14.
A minha casa
São os vizinhos...
O elevador que chia...
Os barulhos que vêm das outras casas...

A minha casa
É o cheiro do meu corpo nos lençóis...
Os cabelos na almofada...
A roupa espalhada pelo meu quarto, o Cristo na cruz...

A minha casa
É a minha avó que tem quase 90 anos...
Os almoços de Domingo...
A toalha que foi branca sobre a mesa com os talheres e os pratos...

A minha casa
É o frio do Inverno...
É o vento do Norte...
É a chuva que cai ruidosamente na calçada tipicamente portuguesa...

A minha casa
É a minha alma...
São os meus livros...
É o tempo que pára para eu sonhar com eles e ser feliz só por isso...

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Salvador Dalí)

13.
As ilusões
São limões verdes
Corações
Presos nas redes
Pequenas acções
Que esperam canções...
Desamores
Escritos nas paredes...

As ilusões
São a luz dos loucos
Puras perdições
Para os outros...

-Poemas de 1998/2000- 
(Quadro de Salvador Dalí)

12.
Cordas esticadas
Empurra o vento... o baloiço...
Branco o ondular... distraído...
Prédios... Elevadores... Parabólicas

Deuses soltam amarras
Aprisionados na existência
Na incongruência das sombras
Feitas de luzes
E transparências translúcidas

De lençóis presos
Na metafísica
No acaso
Mistério das coisas
Cuja ordem natural
Causa e efeito... nada mais.

-Poemas de 1998/2000- 
(Quadro de Robert Ryman)

11.
Corpos
Nus
E
Sexos
Crus
E
Cheiros...
Tu
E
Eu
Sós,
Tocar
Com
Os
Dedos
Os
Nós
Dados...
Laços,
Pedaços
Rendilhados...
Restos
Amados
Deslocados...

Como as nuvens que se afastam levadas pelo vento...
... perde-se tudo...
... o desamor...
A tristeza do vazio...

 -Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Matisse)

10.
Está um dia triste, cinzento, mas não está frio
É Outono, estamos em Outubro, é Domingo...

Os arrumadores, em frente, conversam de mãos nos bolsos
Ao fundo há um que corre de braços no ar, chama por alguém...

Gente de casacos, outros de camisa, todos de Domingo
Todos muito frescos... muito lavados ou nem isso...

As montras parecem ter mel... toca a consumir...
Consumir... é importante...

É mais um dia que deixou de ser e a noite deita-se comigo
É Outono, estamos em Outubro, era Domingo...

-Poemas de 1998/2000- 
(Quadro de Renoir)

9.
Cinzentos dias
Turbulentos tempos
                               Tudo parece ser o que é...
A democracia é uma gata

com cio...

que se roça...

Falecem modelos... nada é rígido e estático...

O desafio é a adaptabilidade...

Mas no principio
Como no fim

Tudo se resume
                                                             estatisticamente...
                                                  
                                                 E os empregos são couves
                                                    de Bruxelas…

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Chirico)

8.
Fugir                                                                                Ter algo contra ou não
Nada encontrar                                              A não ser a tristeza de um olhar
Desencontrado Fugidio                                 Solto no mar
Solidão                                                                             Ser algo
Estranho                                                                                         E profundo
E escasso                                                                         Como tudo no fundo.


-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de René Magritte)








7.
Amontoam-se casas e mais casas
                             As serras e os montes são casinhas

As estradas cortam campos
                                   O progresso range os dentes

As máquinas desatinam desvairadas
                                      E embrutecem as pessoas

E a televisão, o futebol
                                                     As antenas e os cabos
                                                       Dão tudo e ninguém quer mais nada.

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Mimmo Rotella)












6.
As pessoas que estão sentadas nos cafés
Bebem águas gaseificadas
E arrotam a vida dos outros
Com a facilidade de um espirro

Eu acho isso extraordinário
Cosmopolita e, por isso, ridículo,
Amo sinceramente o facto

E o facto é um espirro dado num café

Provavelmente, não haverá nada de mais estranho
Que um animal presunçoso e arrogante
A sorver calmamente o seu café

Com o dedo mindinho, maroto e atrevido
Teso, no ar, como que a dizer: - eu estou aqui!

E de novo um espirro
E mais outro,
De repente a gripe é generalizada...
E as gargalhadas estridentes...
E a morte é a única saída para o crime
De estar ali.

-Poemas de 1998/2000- 
(Quadro de André Masson)

5.
Os dedos
Parados, quase quedos
Tremem de medos

Parados, quase quedos
Os dedos
Tremem de medos.

-Poemas de 1998/2000- 
(Quadro de Yves Tanguy)







4.
No centro da aldeia o chafariz
Bailaricos de fim-de-semana

Sorriso pronto, largo, sincero, de gente
Robusta que ama a terra

E com as mãos calejadas limpa
O suor da testa

O vinho abre o apetite
Encostados, os velhos, sorriem

De rugas na cara e pensamento distante
Tratam o dia a dia com mestria

E matam o tempo nas damas
E na sueca

Enquanto as Donas olham
Para quem triste passa

Nos umbrais das portas,
Sentadas, esperam pela noite

Que chega tarde e fria
Entre ventos sibilantes

E conversas de lareira.

-Poemas de 1998/2000- 
(Quadro de Paula Rego)







3.
O piano           as teclas           o som
   O silêncio                    ganha algo
           E perde         a solidão
O piano           as teclas          o som
   O mundo           na palma da mão
O piano           as teclas          o som
               E no coração flores.

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Salvador Dalí)
2.
As escadas,
Mais em baixo as rochas
O mar e a espuma

Prolonga-se o azul do céu
Na luz intensa do sol
E o sal que me salga a vida sorri

Junto ao chão rola a bola
Morde-me ligeiro o pensamento
O mar junto à estrada

Abraça quem passa
Espelhado na água
O mundo corre ao meu lado.

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de René Magritte)