14.
A minha casa
São os vizinhos...
O elevador que chia...
Os barulhos que vêm das outras casas...

A minha casa
É o cheiro do meu corpo nos lençóis...
Os cabelos na almofada...
A roupa espalhada pelo meu quarto, o Cristo na cruz...

A minha casa
É a minha avó que tem quase 90 anos...
Os almoços de Domingo...
A toalha que foi branca sobre a mesa com os talheres e os pratos...

A minha casa
É o frio do Inverno...
É o vento do Norte...
É a chuva que cai ruidosamente na calçada tipicamente portuguesa...

A minha casa
É a minha alma...
São os meus livros...
É o tempo que pára para eu sonhar com eles e ser feliz só por isso...

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Salvador Dalí)

13.
As ilusões
São limões verdes
Corações
Presos nas redes
Pequenas acções
Que esperam canções...
Desamores
Escritos nas paredes...

As ilusões
São a luz dos loucos
Puras perdições
Para os outros...

-Poemas de 1998/2000- 
(Quadro de Salvador Dalí)

12.
Cordas esticadas
Empurra o vento... o baloiço...
Branco o ondular... distraído...
Prédios... Elevadores... Parabólicas

Deuses soltam amarras
Aprisionados na existência
Na incongruência das sombras
Feitas de luzes
E transparências translúcidas

De lençóis presos
Na metafísica
No acaso
Mistério das coisas
Cuja ordem natural
Causa e efeito... nada mais.

-Poemas de 1998/2000- 
(Quadro de Robert Ryman)

11.
Corpos
Nus
E
Sexos
Crus
E
Cheiros...
Tu
E
Eu
Sós,
Tocar
Com
Os
Dedos
Os
Nós
Dados...
Laços,
Pedaços
Rendilhados...
Restos
Amados
Deslocados...

Como as nuvens que se afastam levadas pelo vento...
... perde-se tudo...
... o desamor...
A tristeza do vazio...

 -Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Matisse)

10.
Está um dia triste, cinzento, mas não está frio
É Outono, estamos em Outubro, é Domingo...

Os arrumadores, em frente, conversam de mãos nos bolsos
Ao fundo há um que corre de braços no ar, chama por alguém...

Gente de casacos, outros de camisa, todos de Domingo
Todos muito frescos... muito lavados ou nem isso...

As montras parecem ter mel... toca a consumir...
Consumir... é importante...

É mais um dia que deixou de ser e a noite deita-se comigo
É Outono, estamos em Outubro, era Domingo...

-Poemas de 1998/2000- 
(Quadro de Renoir)

9.
Cinzentos dias
Turbulentos tempos
                               Tudo parece ser o que é...
A democracia é uma gata

com cio...

que se roça...

Falecem modelos... nada é rígido e estático...

O desafio é a adaptabilidade...

Mas no principio
Como no fim

Tudo se resume
                                                             estatisticamente...
                                                  
                                                 E os empregos são couves
                                                    de Bruxelas…

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Chirico)

8.
Fugir                                                                                Ter algo contra ou não
Nada encontrar                                              A não ser a tristeza de um olhar
Desencontrado Fugidio                                 Solto no mar
Solidão                                                                             Ser algo
Estranho                                                                                         E profundo
E escasso                                                                         Como tudo no fundo.


-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de René Magritte)