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12.
Ergue-se o fumo por entre os meus dedos
Semierguidos em jeito encostado de contemplação
O vazio do lá fora escuro enche-me o coração
Meus lábios, olhos, demorado sorrir, estão quedos
Quebrados na monotonia nostálgica de um fumo
Que se ergue por entre os meus dedos
Mais alto que nada
Mais baixo que tudo.
Esta é a essência, a substância
Feita de infância de passados de nada
A não ser de fumo, daquele cinzento
De cinza lançado ao ar...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Wassily Kandinsky)

11.
A tinta imprimida no papel curva-se
Ao sabor da minha mão, dos dedos
Que correm saltitando de palavra em palavra
Sorriem ao vento imaginário e louco do meu pensar...

Escrevo pelo simples facto de não saber quem sou...
E porque tudo é tinta, letras, palavras escritas
Qualquer coisa, sem nexo nenhum.

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Wassily Kandinsky)

10.
A luta é constante
Nula e psicológica
Tudo é stress
E a vida lógica.

Tudo é tempo, ponteiros,
Contado e preenchido
E a morte é nada.

Tudo é estéril e igual
O dormir é finito
Cansativo e irreal...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Salvador Dalí)

9.
Tudo é falso
Nada é falso
Somente sei nada...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Mikhail Larionov)

8.
Gaivotas sobre o mar
                                       Numa noite quente de luar

Erguem-se a voar
               Entre gemidos frios
Espaços esguios

                                       No céu nulo...


-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Vincent Van Gogh)

7.
Oh, tormentos crepusculares
Cinzentos de sensibilidade
Padeço o mal do desejo
Da imaginação sem forma...


-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Ernst Ludwig Kirchner)









6.
Eu sou matéria
                                             Inerte e imóvel

Eu sou um pensamento
                                             Fútil e inconstante

Eu sou as cinzas e o pó
                                             Um sorrir que não é meu.


-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Ernst Ludwig Kirchner)

5.
Oh, saudade triste saudade
Oh, lembrança audaz e persistente
Que me queimas o interior cruelmente
Vai-te, deixa-me só nas sombras da vontade...

Oh, saudade, triste saudade
De ser feliz somente
Quero por instantes breves sentir que é verdade
A mentira que dentro de mim mente

E ter vontade de nunca mais ter vontade
De lembranças e ledas saudades.

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Matisse)

4.
Já nada sei
Tudo o que escrevo: letras, frases
Nexo não têm.

"Livre é a minha arte" – digo.
Mas o que é ser livre?!...
Ah!... Sentimentos soltos...
Necessidades totais de nada dizer
Somente escrever, até ao fim...
Mas o que é o fim?...

Isto é tudo um erro
Um erguer de uma voz...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Pablo Picasso)  

3.
Tudo é um não saber constante...
Tudo não passa de um equivoco natural e inconsciente...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Pollock)










2.
Tudo o que sou
Já nem sei quem é
Todo o eu é plural...
Sombra... sombras...
E eu vivo contente,
Feliz... só e sempre dois...

O plural e eu sós
Fitando a sombra de nós...

Uma só é a minha voz
Eu sou um só,

Mas... uma parte de mim sou eu
A outra não sei.

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Piet Mondrian)

1.
Respiro o ar que pisas e se perde na penumbra
Escura e fria... os teus passos no meu peito como um pêndulo...
O tempo tomba no espaço íntimo da minha existência...

Despidos os corpos de vaidade... doce o azul dos teus olhos mar...
Faleço em querer-te... ofuscado na tua imagem, o meu ser... sonho...
Espelhos quebrados... luar que inunda o quarto... pela janela a escura solidão.

Bailam no escuro cabelos ao vento celestes...
Um resto de ser paira em mim... vejo a sombra...
À noite, no estar só, a sombra funde-se em mim...

A pena escreve indiferente e nula... o pensamento vão...
Chegam-me aos ouvidos ruídos estranhos... a noite a acordar em mim...
Uma voz uma guitarra um só eco um só tempo um só espaço...
momento...

-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Pierre-Auguste Renoir)
II - TODOS OS SONHOS DO MUNDO (1982-1991)



"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

Álvaro de Campos