"Existe uma coisa formada confusamente,
nascida do céu e da terra.
Silenciosa e vazia,
Permanentemente só e inalterável,
Anda por aí sem se cansar
E pode ser a mãe do mundo.
Não sei o seu nome,
Por isso chamo-lhe «O Caminho»."
Lao-Tsé (cerca de 604-531 a.C.)
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31.
A água
cai em
cascata
Fresca ligeira muito liquida
Há orvalho na manhã fria
A água
Liberta vapor
O nevoeiro engole as árvores
O sol
Que espreita
Aves que planam no céu
Mal se distinguem...
pequenas silhuetas
Oiço
Com nitidez
O bater de asas e sinto-me feliz
por estar nesta paisagem
E não estar ao
mesmo tempo sinto um gozo enorme
De me sonhar noutros lugares
Que não este...
-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Henri Rousseau)
27.
As sombras nuas espreitam-me com os olhos esbugalhados
Silenciosamente, docemente... a luz artificial no teto...
Em baixo, por cima da cama dois corpos entrelaçados
Nas margens as roupas em desarrumo especial...
Em baixo, quase ao meio, o regaço húmido e quente
As pernas abertas, carícias suaves
Em baixo, os lençóis molhados de suor e de cheiros
O calor das extremidades, gotas de orvalho... nasce o Sol...
Em baixo, os gritos de uma mulher e de um filho
O homem acaba de chegar, de voz rouca, quase inocente...
As sombras salientes como manchas nas paredes...
-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Gustave Courbet)
26.
Nem sei onde estou...
No reflexo do vidro
Vejo as cadeiras castanhas, altas
Com um capucho amarelado
Que já foi branco,
Olho as linhas dos bancos
Muito apertadas pelos botões,
Não consigo ver a estrada
É noite, chove, é escuro,
Estou perdido...
O sorriso do cobrador
A condizer com o vestir dos lugares...
E com um dente ou dois já podres...
Um cheiro fétido erra no ar
Compacto, forte, embaciado...
Tenho os pés molhados...
E um frio que se me cola aos ossos
Chove... oiço... olhos cansados
A camioneta corre como uma mula...
Trim... trim... trim...
Toda a gente gosta da campainha
Todos querem sair... partir...
Escapar da vida que os cerca...
-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Joan Miró)
25.
... O eco dos loucos...
... Miragens estranhas...
... Ruídos baixos...
... Eles não sabem...
... Respirar com os olhos...
... Voltar ao mar...
... Correr, fugir...
... Para quem são as palmas...
... Cada conversa...
... Consigo ouvir...
... Tudo começa...
... No desamor...
... Sofrer dos males da alma...
... Tu és o teu destino...
... Eu e tu calçados...
... Gostar de olhar a merda...
... Eu sei que há paixão nas palavras...
... Amanhã será...
... A pureza de nos sentirmos...
... Um sinal de igual em tudo...
... Vamos olhar o futuro...
... Nas chamas um sentido...
... Escrever cartas e deitar no lixo...
... Movimentos descontínuos...
... Acções divergentes...
... Actos complicados, diplomáticos, urgentes...
... Pungentes razões para existir somente...
-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Victor Brauner)
22.
Lembras-te de mim
Ó imagem, miragem
Minha distante?
Recordas-te de mim?
Ó eu que me invoco
Responde ao meu chamar!...
Lembras-te de mim
Ó imagem, miragem
Minha distante?
Recordas-te de mim?
Ó eu que me invoco
Responde ao meu chamar!...
Quando em mim cruzares
Ao atravessarmos os dois o mesmo lugar
E se seguirmos rumos diferentes,
Fala-me, diz-me algo...
Mesmo que nada seja...
-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Mark Rothko)
19.
A luz da vela decai agora frouxa e mole
Nas rudes paredes do coberto
Uma leve dor transpira das paredes
A gota de luz cai, espalha-se
Em cada letra escrita
No livro, naquela página...
...Mas nada contém...
...Vazio e palavras...
O livro aberto, aberto pelo vento
Que vem da porta fechada...
E que inunda o espaço...
-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Jackson Pollock)
18.
Queria ser quem nada pretende querer
Queria ser não sendo, sendo só viver
...Ah, tão longe da minha ideia o meu destino dista...
Queria ser o teu destino, o teu desfalecer
Queria ser o querer-te sem receio de morrer
Queria ser o ar que respiras sem perceber
Queria... talvez, só entender!...
-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Degas)
17.
Respiro comigo mesmo o ar
Da solidão escura que existe em mim
Todos os céus num só
Na minha mão que são muitas
O meu ensejo é esquecer o azul
Os meus dedos que sobram
E se completam sem eu entender...
Bafos de lua cheia
Marés distantes, noite
Que nunca acaba por eu gostar dela...
Amor que se apaga sem ter acendido...
Desilusão fugaz e eterna
Que brota das entranhas
Profundas de um oceano chamado eu...
Morra-me a vontade
Que seja eu quem devia ter sido.
Deixo-me falecer nos teus braços
Que são os meus
E durmo o sono efémero ouvindo
A voz do meu sonho...
-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Courbet)
16.
Brinco com os teus dedos
Entre os meus, penso em nós
E o futuro é um horizonte vasto
Feito de céus e de nuvens
E de rios pequenos e grandes
E oceanos e tempestades
E tardes calmas de Verão
E o mar chão a dar-me
Pelos joelhos nus... marés vivas
E planícies verdejantes
Prados brilhantes
E desertos e oásis
E no fim, bem lá no fundo
Bem ao centro
O astro amarelo e vermelho
De uma tonalidade impar
Majestosamente, eleva-se
E este é o princípio mágico
Que ainda não entendi
Que nos une na eternidade
Para todo o sempre...
-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Courbet)
-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Courbet)
15.
A cidade mergulha no cinzento claro
Do aveludado, acetinado, lençol céu...
A cidade mergulha no cinzento claro
Do aveludado, acetinado, lençol céu...
Não é de chuva nem de vento
Nem de frio o dia.
As casas amontoam-se na encosta
Telhados cor de tijolo, algumas vestidas
Outras ainda nuas olham o futuro
Distante, longe, são os vizinhos de outras terras
Ruas que descem, tascas, vinho
Que aquece a alma, respira pelas frinchas
De cada porta, deixa um aroma
Fresco de vida na calçada húmida, ainda é manhã...
À hora do almoço, um ar a comida
Flutua, erra nostalgicamente pelas ruas
Nunca ninguém pintou nada
Desta paz silenciosa, deste sentimento
Intenso que assalta as narinas
De quem distraído passa.
-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Cezanne)
14.
Parecem esquecer-se em mim as memórias
... Daquele átrio...
Onde a minha saudade se esconde
Onde a minha alma se perde
... Em cada pétala...
... Em cada manhã...
Os campos todos de branco
O Sol fugidio...
Muros altos
Paredes sujas
Redes fugas
Paixões rebentos
Intentos queridos
Eu sou aquele solitário
Ali sentado, encostado,
Demorado no olhar
Triste no ser...
-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Renoir)
13.
Quem é aquele rapazito?
Que ali sentado parece
Aquele velho viciado
No tabaco e na bebida
E que faz versos para enganar
Os tempos e os ventos
E os lamentos que ainda o esperam...
Quem é aquele garoto?!
Que sabe ele da vida?!
Terá rugas algum dia
Quem na aparência
Já as tem?!
Quem és tu?
Que de nariz aquilino
E semblante escuro
Parece tecer o passado no futuro...
Quem és?
Que fazes tu aqui sozinho
Pálido, magro, inerte, pensativo...
Em que pensas tu?
A chuva cai
Escorre-te pelo rosto
Silencioso, quieto...
Não tens frio?!
Não tens sono?!
Estou a vê-lo
Nítida a imagem
Movimento estável
Doloroso medo...
Quem és?
Serei eu
Que não sendo menino
Velho não sou?!
Sou eu...
Aquilo que sempre fui...
Até à eternidade...
Eu sou ele
Na lembrança
Nesse resto de mim...
Não tenho frio nem sono,
Apenas tenho saudade dos outros,
Daqueles que nunca fui...
-Poemas de 1982/1991-
(Quadro de Salvador Dalí)
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