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12.
Cordas esticadas
Empurra o vento... o baloiço...
Branco o ondular... distraído...
Prédios... Elevadores... Parabólicas

Deuses soltam amarras
Aprisionados na existência
Na incongruência das sombras
Feitas de luzes
E transparências translúcidas

De lençóis presos
Na metafísica
No acaso
Mistério das coisas
Cuja ordem natural
Causa e efeito... nada mais.

-Poemas de 1998/2000- 
(Quadro de Robert Ryman)

11.
Corpos
Nus
E
Sexos
Crus
E
Cheiros...
Tu
E
Eu
Sós,
Tocar
Com
Os
Dedos
Os
Nós
Dados...
Laços,
Pedaços
Rendilhados...
Restos
Amados
Deslocados...

Como as nuvens que se afastam levadas pelo vento...
... perde-se tudo...
... o desamor...
A tristeza do vazio...

 -Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Matisse)

10.
Está um dia triste, cinzento, mas não está frio
É Outono, estamos em Outubro, é Domingo...

Os arrumadores, em frente, conversam de mãos nos bolsos
Ao fundo há um que corre de braços no ar, chama por alguém...

Gente de casacos, outros de camisa, todos de Domingo
Todos muito frescos... muito lavados ou nem isso...

As montras parecem ter mel... toca a consumir...
Consumir... é importante...

É mais um dia que deixou de ser e a noite deita-se comigo
É Outono, estamos em Outubro, era Domingo...

-Poemas de 1998/2000- 
(Quadro de Renoir)

9.
Cinzentos dias
Turbulentos tempos
                               Tudo parece ser o que é...
A democracia é uma gata

com cio...

que se roça...

Falecem modelos... nada é rígido e estático...

O desafio é a adaptabilidade...

Mas no principio
Como no fim

Tudo se resume
                                                             estatisticamente...
                                                  
                                                 E os empregos são couves
                                                    de Bruxelas…

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Chirico)

8.
Fugir                                                                                Ter algo contra ou não
Nada encontrar                                              A não ser a tristeza de um olhar
Desencontrado Fugidio                                 Solto no mar
Solidão                                                                             Ser algo
Estranho                                                                                         E profundo
E escasso                                                                         Como tudo no fundo.


-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de René Magritte)








7.
Amontoam-se casas e mais casas
                             As serras e os montes são casinhas

As estradas cortam campos
                                   O progresso range os dentes

As máquinas desatinam desvairadas
                                      E embrutecem as pessoas

E a televisão, o futebol
                                                     As antenas e os cabos
                                                       Dão tudo e ninguém quer mais nada.

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Mimmo Rotella)












6.
As pessoas que estão sentadas nos cafés
Bebem águas gaseificadas
E arrotam a vida dos outros
Com a facilidade de um espirro

Eu acho isso extraordinário
Cosmopolita e, por isso, ridículo,
Amo sinceramente o facto

E o facto é um espirro dado num café

Provavelmente, não haverá nada de mais estranho
Que um animal presunçoso e arrogante
A sorver calmamente o seu café

Com o dedo mindinho, maroto e atrevido
Teso, no ar, como que a dizer: - eu estou aqui!

E de novo um espirro
E mais outro,
De repente a gripe é generalizada...
E as gargalhadas estridentes...
E a morte é a única saída para o crime
De estar ali.

-Poemas de 1998/2000- 
(Quadro de André Masson)

5.
Os dedos
Parados, quase quedos
Tremem de medos

Parados, quase quedos
Os dedos
Tremem de medos.

-Poemas de 1998/2000- 
(Quadro de Yves Tanguy)







4.
No centro da aldeia o chafariz
Bailaricos de fim-de-semana

Sorriso pronto, largo, sincero, de gente
Robusta que ama a terra

E com as mãos calejadas limpa
O suor da testa

O vinho abre o apetite
Encostados, os velhos, sorriem

De rugas na cara e pensamento distante
Tratam o dia a dia com mestria

E matam o tempo nas damas
E na sueca

Enquanto as Donas olham
Para quem triste passa

Nos umbrais das portas,
Sentadas, esperam pela noite

Que chega tarde e fria
Entre ventos sibilantes

E conversas de lareira.

-Poemas de 1998/2000- 
(Quadro de Paula Rego)







3.
O piano           as teclas           o som
   O silêncio                    ganha algo
           E perde         a solidão
O piano           as teclas          o som
   O mundo           na palma da mão
O piano           as teclas          o som
               E no coração flores.

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Salvador Dalí)
2.
As escadas,
Mais em baixo as rochas
O mar e a espuma

Prolonga-se o azul do céu
Na luz intensa do sol
E o sal que me salga a vida sorri

Junto ao chão rola a bola
Morde-me ligeiro o pensamento
O mar junto à estrada

Abraça quem passa
Espelhado na água
O mundo corre ao meu lado.

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de René Magritte)











1.
Ventos                                estranhos

Emergem                                            neste fim                               de século

Deste caos                         inorgânico.                           Desumanos


Pequenos e grandes monstros                                 seres verdes de antenas


 
que esmagam o mais profundo de nós...

-Poemas de 1998/2000-
(Quadro de Hieronymus Bosch)
I— Energia Original (1998-2000)





“Suspensos os credos e as escolas,
Retiro-me por certo tempo, deles saturado mas não esquecido,
Sou o porto do bem e do mal, e seja como for falo,
Natureza sem obstáculos com a sua energia original.”


Walt Whitman