Prefácio
O Silêncio das Palavras fez-me penetrar na meditação e escapulir da voragem dos dias conturbados pelo rasgar do tempo.
Sensação de emoções puras, de esvoaçar na penumbra das palavras sem retorno, nas escarpas agrestes da solidão no seio do emaranha-do de cimento, da multidão anónima apunhalada pelas injustiças do quotidiano.
A paisagem, a beleza da natureza, o calor do sol, os verdes das planícies, os sons silenciosos das profundezas do mar, a alacridade das estrelas, o cheiro voluptuoso da terra molhada, o amor a desabrochar nos corpos sedentos, tudo transparece nas palavras do silêncio, no marulhar revoltante do inconformismo.
penetro no silêncio das palavras
ventos estranhos do poema 1. a conturbar o caos inorgânico
teclas do piano a desbravar impotências
das mãos calejadas e das rugas das gentes simples
amarfanhados sem complacências pelos donos do poder mesclados de ganâncias
medos a desabrochar nos covis da desgraça
embrutecer propositado do povo solitário sem esperança
modelos esgotados e gastos pela desmedida corrupção
pasme-se
ainda é possível escrever poemas sobre o quotidiano
sobre o vazio e o desamor
pedaços de sexo
silêncios na noite de corpos nus
incongruências das sombras translúcidas eivadas de ilusões
réstia de felicidades rituais de zero absoluto
cifrões do fisco a massacrar o povo
paradoxo de ignorantes sábios da mentira
revoltas obscenas contaminadas por inutilidades
dores profundas do poeta mendigo desalentado
fio da navalha certeira na morte vegetal
máquina conta tensões arteriais
10, 9, olhos suplicantes silenciosos
8, 7, 6, brilho ainda nos olhos doces
5, 4, 3, olhos esmorecidos
2 ,1 e mais nada?
impotência a tolher os passos
resta nos outros a essência do sonho
foi assim a viagem pelo silêncio das palavras
Poderia acrescentar mais e mais sobre o Silêncio das Palavras. Através dos poemas renasci e estremeceu o poeta adormecido, acorrentado e atormentado pela crueza da sobrevivência.
Maria do Rosário Almeida
(Professora Doutora, Docente na Universidade Aberta)